quinta-feira, 14 de maio de 2015

Uma carta para ti

Errei. Não devia ter fingido que não te vi. Na verdade, nem sei por que o fiz. Podia perfeitamente ter ido ter contigo e dizer-te olá, perguntar-te se estavas bem, como tantas vezes perguntamos mutuamente no Facebook. É por isso que acho que errei. Acho que errei porque, na verdade, não tenho motivos para fingir que não te vi. E se há uns anos, não muitos, nos dissessem que isto ia acontecer, não íamos acreditar. Eu já fingi algumas vezes que não vi alguém apercebendo-me que a outra pessoa também fingiu que não me viu, já vi alguém a quem seria capaz de ir falar e que fingiu não me ver e também já vi alguém que estava prontinho para fingir que não me tinha visto e eu me aproximei perguntando-lhe, animada, se estava a fingir que não me via. Depende da pessoa e sobretudo do que essa pessoa nos é e nos diz. E é por isso que ainda me custa aceitar que tenhas mudado tanto. Eu também mudei muito. Mas sinto que antes eras diferente, tinhas em mente outro rumo, outros objectivos, bem mais parecidos com os meus ainda que distintos. E posso estar errada mas tinham tão mais a ver contigo. Eu também mudei. Apenas não mudei a minha essência. Essa continua cá. Ainda me lembro de uma carta que te escrevi a dizer-te que esperava que, ao longo da vida, pudéssemos continuar sempre amigas, que queria que os nossos caminhos, por mais paralelos que pudessem ser, nunca nos afastassem e que conseguíssemos aceitar os rumos que as nossas vidas levariam, com mais ou menos tempo que passássemos juntas. Mas...mudaste tanto. Já não és mais a minha amiga com quem me identificava. Na verdade, acho que o problema é esse. Eu acho que já não me identifico contigo. Esta coisa de nos identificarmos com alguém, pode ter vários motivos, mas eu acho que grande parte se prende com o facto de existirem semelhanças entre as pessoas, objectivos em comum, semelhanças na forma de ser, mesmo que outras coisas sejam completamente opostas. E, logicamente, é necessário querer manter a amizade. Mas e quando se sente que já não se tem nada a ver com essa pessoa? Eu acho que quando há um passado bom e isto acontece, nós tentamos e tentamos, porque queremos que tudo seja como antes. Mas já não é mais. Apesar de ter esperança que algum dia isto mude e que voltemos a falar com a mesma cumplicidade, mesmo que com caminhos diferentes. Porque acredito que isso é possível. Sei que sim, até porque tanto tu como eu, temos outras amizades que se mantêm e ainda bem.

Esta é a carta que nunca te escrevi, na verdade são palavras que me custam a sair. É por isso que evito o assunto quando alguém me fala de ti. Custa-me dizer a alguém que já não somos mais o que éramos. Que por mais que eu confie em ti e tu em mim, já não é minimamente igual. Custa-me admitir que já não temos nada a ver uma com a outra. Custou-me muito mas hoje custa-me um bocadinho menos depois de te ter feito aquilo ontem. Fingi que não te vi porque finalmente admiti para mim mesma que nós já não somos o que éramos. Fingi que não te vi porque, por incrível que pareça, eu já não saberia o que mais te dizer além de te perguntar se estás bem. E isso é o que eu pergunto a qualquer conhecido. Não a ti. Desculpa, sei que errei mas eu não estava preparada para ter essa conversa seca contigo, não depois de tantas horas de conversas e confidências que já tivemos.

6 comentários:

  1. Revejo-me tanto neste texto...tive uma grande amiga que aconteceu exactamente tudo o que descreves! Infelizmente a vida e as pessoas mudam e perdemos pessoas importantes...

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  2. Bela carta, gostei muito!

    1beijo,
    http://umblogsoparamim.blogspot.pt/

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  3. Que texto lindo. Um grande beijinho.

    http://thesunnysideoflifeblog.blogspot.pt/

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